São Paulo é uma cidade, no mínimo, curiosa. Aqui tem gosto pra tudo. Não importa se sua certidão de nascimento te torna um paulistano, importa apenas que aqui todas as pessoas encontram seu nicho, seus lugares, seus cantos e encantos. Tanto é verdade que nossa Cidade da Garoa está empanturrada de gente! (o ponto negativo de tudo isso, claro!)
Cada uma de nossas esquinas contam histórias do mundo todo, mesmo as mais simples. Imagine as famosas, como a Ipiranga com a São João, cantada até em nossa música (nem tão) popular!
Com tanta exuberância e glamour, Sampa parece exigir muitos dos maravilhados cidadãos. Os desavisados ou desatentos pensam que somente com dinheiro, e muito dele, para aproveitar tantas opções. De certa forma, até é verdade, principalmente se a busca for por luxo, conforto e status, mas... se não for, prepare-se! São Paulo é a cidade das opções!
Se me permite uma única sugestão... O principal para iniciar a maratona por nossas avenidas, ruas e vielas é ter uma boa companhia! Isso sim não tem preço e nem todo o dinheiro do mundo é capaz de bancar. Companhia garantida e coração aberto para viver sem frescuras são os ingredientes essenciais. Lógico que se você descolar um "bilhete único" e uns trocados os pés agradecem! rs
Como filha dos encantos paulistanos, me dou ao direito de contar o melhor dos roteiros, num dia perdido no meio do carnaval, com uma tranquilidade surreal.
Primeiro passo: Metrô!
Já prestou atenção no metrô? É... Já olhou para as pessoas e observou suas emoções? São pessoas, não figurantes, sabia? Cada um ali tem uma vida, uma história, às vezes, até mais interessante que a sua! Posso dizer que no metrô vivi esse dia com tanta alegria que merecia um livro todinho e, o mais legal, é que só nós dois sabíamos... um momento só nosso. O anonimato chega a ser instigante...
Gosto de praticar a observação... Aprendo muito, e admito que depois desse dia me tornei ainda mais atenta, mais fascinada com a capacidade humana de se expressar, de demonstrar o que sente. Fico olhando e imaginando as milhares de momentos reunidos em um único trem... Assim como eu, naquele dia, tinha meu momento... Bom pensar isso! A gente valoriza mais o espaço dos outros.
Nosso metrô é um show à parte, suas estruturas, sua diversidade, sua gente. Aqui vale (quase) tudo: dormir, comer, se arrumar e, certamente, divagar, refletir, até chorar. Rir, cochichar confidências, brincar, namorar, beijar (discretamente, claro, pra não provocar a imaginação alheia - rs). Muitas vezes, a diversão começa ali... Lógico que conforto não é o forte do ambiente, mas sempre há algo de bom pra retirar da situação.
Segundo passo: Passeio cultural no Memorial da América Latina.
Tudo bem que a intenção era ver a Taça da Copa do Mundo e esquecemos do detalhe de conferir a data da exposição. Detalhe... rs... Mas o passeio é sempre valioso por lá. Você se sente tão pequeno ali naquele pátio amplo, naqueles salões de pé direito alto, entre aquelas peças de arte moderna simplesmente fantásticas, mergulhados no silêncio de reverência à arte. Só que ainda acho bem mais divertidos os comentários inevitáveis diante das obras mais estranhas do mundo... (Lógico que você não deve arriscar dizer nada se não estiver com a melhor das companhias, viu? Vai que o indivíduo se escandaliza com seus sacrilégios! rs)
Olha... a manhã estava linda demais, uma luz natural divina e um calor dos infernos!!! Ou seja... ou nos hidratávamos bem ou um desmaiava rapidinho no asfalto estalando. O próximo passou ficou óbvio: BEBIDA!
Pensa que nos deixamos levar por qualquer refrigereco dos camelôs do centro da cidade? Que nada! Nossa bebida estava em lugar marcado, já definido e tão esperado. Uma casa de sucos no meio do centro, perto do metrô República, uma quadra, nem isso. Pensa num corredorzinho perdido entre tantos prédios, com frutas para tudo que é lado, e aquele povo que fala tão rápido que você acha sinceramente que é outra língua, ali do seu lado tomando um suco natural que chega a ser indecente de tão bom. Ah! Não é um copo de suco, é uma jarra! Tem que ser bom de gole. rs
Além da delícia natural dos sucos, basta esticar um pouquinho o ouvido pra ter um verdadeiro ataque de risos! Olha o papo...
Um homem do nosso lado, com um menino de seus quatro anos sentado no balcão conversando com o outro, funcionário do lugar. Do nada uma frase num dialeto qualquer desse país de meu Deus:
- Zé, é seu filho?
- Não. É seu. Tô cuidando dele enquanto você trabalha.
Pensa! M-O-R-R-E-M-O-S DE RIR! Engasgar ali era até vantagem diante da resposta original do colega de suco. rs O outro nem respondeu nada depois dessa, né? Mesmo porque estávamos vermelhos na tentativa fracassada de esconder a gargalhada e ninguém mais sabia como agir. Engolimos o restante das nossas jarras e bora pra rua!
Próximo passo (depois de muitos passos): Avenida Paulista
Tem avenida mais gostosa de andar do que a Paulista? Hum... Duvido, viu... Tem de gente engravatada até os bichos-grilo espalhados. O clima é diferente por lá... O tempo nem passa direito. Naquele dia não foi diferente... ao contrário... Se não fossem os pés sinalizarem que estava na hora de parar, teríamos andado mais ainda. A sorte foi a última parada estar próxima: LIVRARIA CULTURA do Conjunto Nacional.
Quem já passeou por suas prateleiras sabe o que estou dizendo... É um mundo à parte. Nem combina com o restante. Uma "Terra do Nunca" para quem sabe o valor de um bom livro e o prazer escondido em cada página. Estou sempre lá... Certamente a livraria que mais gosto. Só que foi a primeira vez que compartilhei essa sensação... que curti aquele lugar... daquele jeito. Ganhou outro significado, confesso.
...ufa... Que dia maravilhoso!
Não disse que em boa companhia, com um toque único de bom humor e desprendimento, essa cidade vira um fascínio?! É diversão garantida. Este foi só um dia... Outros dias contam outras histórias... Como cada um tem a sua, tenho as minhas e faço questão de cuidar bem delas... É minha forma de marcar minha estrada com coisas eternas. E você? Já tentou fazer o mesmo? Felicidade custa pouco e está nos momentos e em mais nada. Experimente... garanto que vale a pena!
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sábado, 6 de março de 2010
domingo, 17 de janeiro de 2010
Dia de Alberguista
Quem pensa que albergue é coisa de gente pobre de dinheiro e de espírito comete o primeiro dos erros. Quem pensa que é desconfortável e desagradável perde o melhor da brincadeira. Me arrisquei! Resolvi quebrar paradigmas para alcançar meu objetivo de estar no Rio, com orçamento baixo e ainda assim muita energia e disposição para viver o que me esperava sem preconceitos e amarras. Quer saber o que aconteceu? Então... Acomode-se e aproveite um dia alberguista no Rio de Janeiro!
Você é louca?
Ótima primeira pergunta para ouvir num quarto de moças com sotaques diversos. Sim. Louca por chegar sozinha num albergue no Rio de Janeiro. Eu, minha mala e minhas idéias na cabeça. Esse dom maluco de fazer amigos em qualquer lugar me ajuda. Vai por mim!
Malas no lugar, ligações de cheguei bem e as escadas me separavam da sala de convivência. Num calor enlouquecedor, era o ambiente mais cobiçado do albergue, com ar condicionado e tudo à mão. Todos jogados no grande sofá, vendo novela, com o sorriso bem frouxo para quem quer que fosse. Em menos de cinco minutos já estava com um copo na mão e conversando com mineiros, catarinenses, paranaenses, suíços, gente de todos os cantos com o mesmo espírito desprendido e irreverente. Conversas descontraídas e tão diversas que passaríamos por qualquer coisa: políticos, ambientalistas ou humoristas.
O primeiro papo foi sobre origens, gostos pessoais, profissões. Só ali já tínhamos marketeiros, professores, diretores de escola, marceneiros, advogados e estudantes. Pensa que isso nos impediu de falar de tudo? Que nada! Só incentivou. Num lugar como Rio e no ambiente alberguista foi fácil chegar aos esportes radicais. Amo! Rapel, escalada, montanhismo. O catarinense já é apaixonado por mergulho submarino. Do nada uma declaração da nossa excelentíssima diretora de escola em BH: Poxa... Não faço nenhum esporte radical... Não pensei duas vezes para rebater a declaração descabida: Não? Como não? Você é diretora de escola! Quer coisa mais radical do que isso? A simpatia dos primeiros instantes foi apenas estreitada com as risadas seguintes. O primeiro contato noturno foi curto e determinante. Dormir naquele quarto com mais sete moças desconhecidas, acordando diversas vezes tentando descobrir onde estava, foi uma aventura à parte, mas sobrevivi!
Café da manhã simples, até caseiro, inaugurou o dia quando minha nova amiga instantânea, a Édila, sentou ao meu lado e logo veio o convite da praia da Barra. Precisava voltar logo, então esta me parecia a pior as opções pela distância de Copacabana, mas não resisti! Eu, Édila, Rita e Maria Luiza, andando pelas avenidas do Rio, atrás de uma condução que nos levariam ao destino tão esperado. Dois segundos depois, estávamos numa vã clandestina da melhor qualidade, que parou ali na Avenida Atlântica, numa esquina movimentada, sem nenhum pudor. Parou e nos pegou. Ar condicionado! Que alívio aquilo!
Seis reais por pessoa nos levariam até a Barra com um motorista muito simpático, que falava tão baixo que parecíamos crianças com ouvidos esticados e caras de interrogação. Confesso que eu e a Édila é que fizemos mais esse papel. Ainda penso que tenho algum problema de audição, juro! rs A Rita e a Maria Luiza pareciam ter nascido ali, entre aquelas pessoas que falam diferente e baixo! Uns quilômetros à frente, mais um grupo de três moças dão sinal e entram na vã daquele jeito, agradecendo aos céus pelo ar condicionado! Diga-se de passagem foi a primeira coisa que ouvi da boca da Edy, que entrou escorrendo de suor e bendizendo a invenção humana mais querida naquele momento: "ar condicionaaaaaaaado".
O percurso ia bem, com o motorista sussurrando os pontos turísticos no caminho para os pescoços esticados lá atrás. Ahhh! Bom ressaltar que a Rocinha é um ponto turístico! Fiquei besta de saber que existe até passeio autorizado pelos donos do morro, com direito à exposição de metralhadoras e tudo o mais. Dá pra tirar foto daquela situação irregular – "irregular", pra ser boazinha, claro. Não parece conceito de zoológico? Entre as informações do nosso motorista, quase particular, descobrimos que tem gente que constrói prédios na Rocinha, em terreno que é lógico que não os pertence, aluga, ganha grana e mora no Leblon! Tipo... Como assim??? As minhas naturais indignações político-sociais iam perambulando na cabeça quando, de repente, uma viatura manda nossa super-vã parar, no meio da avenida.
E aí, chefia, como está o movimento hoje?
Hã??? Que pergunta é essa, seu guarda??? Minha indignação começou a ferver, sair pelas orelhas e poros - menos pela boca, claro! A conversa continuou com aquele policialzinho com cara de bandido de quinta categoria.
Não... Tá fraco, só essas meninassss hoje.
Deveria ser o final da conversa, não deveria? Que nada! O guardinha meia-boca já solta um "Podemos conversar aqui atrás?"
Ah!!!! Peguei!!! Corrupção descarada!!! Ahhhhh!!! Que raiva!!! Imagina uma vã, com sete turistas nitidamente alvoroçadas - moças de biquíni, entre 25 e 35 anos -, e um carinha perdido lá no meio, de terno e gravata, que nem respirava para não atrapalhar nossa empolgação. As últimas três que estavam sentadas no fundão, já queriam saber o que estava acontecendo, porque estávamos parados no meio da rua, porque o guarda mandou nosso simpático motorista sair, será que alguém ia nos prender, nos seqüestrar, será que teria troca de tiros ou qualquer coisa desse tipo? Especulações à parte, o coitado do moço de gravata fingia dormir, mas deixava escapar um sorrisinho enviesado. As minhas amigas mineiras no primeiro banco já achavam que era alguma coisa errada no veículo que não era o mais novinho do mundo. Eu, bem no meio, só fazia sinal de G-R-A-N-A com os dedos: O filho da mãe quer o 'dele', isso sim! Parecia óbvio, apesar de inadmissível!
O motorista voltou com aquela cara de puta que pariu e foi recepcionado pela avalanche de perguntas das turistas enlouquecidas! Advinha quem estava certa? EU!!! Pelo menos ele não deu grana pro cara; o convenceu de que ainda não tinha o que dar. Grave foi a declaração que escapou mais baixinho e abandonado do que o restante: Pior que é todo dia isso...
Meuuuuuu!!! Tem um monte de bandido na rua, cara!!! E o guardinha pilantra parando vã que está trabalhando na boa, meu??? Ahhhhh!!! PQP!!!
Tudo bem... Tudo bem... O show precisa continuar...
Passamos pela conhecida Ilha dos Globais e o motorista nos deixou numa ponta da avenida, orientando os próximos passos: "vou largar vocês aqui; vocês descem, passam por baixo do viaduto, e é só andar reto que chegam na Praia do Pepê". Largar é sacanagem, não é não? Mas foi exatamente o que ele fez, nos largou lá. Os momentos seguintes foram hilários! As sete moças que se encontraram na vã, saíram juntas e assim permaneceram pelo restante do dia. Detalhe: Minhas amigas mineiras mudariam de albergue na tarde seguinte, quando eu já me prepararia para voltar pra Sampa, e iriam justamente para o albergue onde as outras três estavam hospedadas, no mesmo quarto!!! Coincidência??? Que nada... Isso não existe! Existe providência.
Pensa que só paulisssssta é acelerado? Que nada! Não foram precisos mais do que alguns segundos para que já tivéssemos uma recepção e tanto na praia da Barra. Guarda-sóis, saídas de praia, bebida e comida, além da vizinhança famosa. Sabe quando você olha pro lado e vê um rosto até conhecido, mas não tem a menor idéia de quem é? Então... Era um ator da Globo, parece que da Malhação. Pensa... Eu lá tenho tempo de ver Malhação, amigo??? Só identifiquei a "celebridade" quando as menininhas começaram a chegar pra tirar fotos com o sorrisinho escancarado do rapaz de barriga de tanquinho! Coitado, né, meu? Nem consegue tomar um sol em paz! Pior os "amigos" dele, nitidamente mais velhos e nada interessantes, dando risada do cara. Eles que eram motivo de piada. Idiotas invejosos! rs

Embaixo daqueles guarda-sóis, o papo foi caminhando para filosofias de vida, opiniões pessoais das mais malucas, histórias fantásticas de cada uma, e até descobri que uma delas, a Marcelli, namora um aikidoísta lá em Curitiba! Mundo pequeninho esse das artes marciais, viu? Sem falar da paisagem... Ah... A paisagem daquela praia... Me perdi inúmeras vezes olhando para o mar, limpando minha mente, revivendo, reciclando, recomeçando do zero. Parece que meu ano começou ali, com aquele clima delicioso de amizade recente, tranquilidade, descoberta, desafio. Tudo fora do comum como eu tanto desejei meu 2010: imprevisível e intenso. Prestava atenção em cada palavra dita, olhando bem nos olhos das novas amigas, encantada pelo momento único com que a vida me presenteou. Simpatia instantânea, sabe? Talvez por isso digam que tudo é uma questão de ação e reação, afinal, da minha parte só partia isso mesmo: simpatia, desprendimento, transparência, flexibilidade, disposição de conhecer, aprender e rir muito! Recebi o mesmo em troca e, pelo que sinto, essa não será nossa única aventura juntas.
O sol baixou e pegamos nossas coisas. Graças às meninas e à banha que a Marcelli me emprestou orientada pela Edy, ganhei uma corzinha maravilhosa para exibir na Cidade da Garoa! Depois de um tempão na avenida da praia nos perguntando se realmente existia um ônibus para Copacabana, o danado veio, L-O-T-A-D-O! Passando da catraca, vi um rapaz alto e lindo estampando um sorriso maravilhoso no rosto. O sorriso era pra mim! Com esse tamanho todo, não consegui alcançar na barra para me segurar e ele me ajudou, ainda sorrindo, e falou alguma coisa que eu nem entendi. Sorri em agradecimento e fiquei ali queitinha, apertada como sardinha na lata. Entre um balanço e outro, a conversa começou e logo estávamos todas tagarelando com o grupo dele, um grupo de italianos em férias no Rio! Engraçado o jeito que o povo se diverte por aqui! Como eles disseram, só no Brasil se pode sorrir tanto e tudo ficar bem no final. A viagem de ônibus mais alegre da minha vida! A Rita deixou o coração de um dos italianos balançado e até combinaram de se encontrar no ensaio da escola de samba à noite. Apenas elas, claro, porque eu nem curto samba e meu compromisso insubstituível era com os meus cariocas aikidoístas!
Depois do banho tomado, do perfume, do vestido branquinho mostrando as tão caras marquinhas conquistadas na Barra, recebi um abraço carinhoso da Édila (super diretora de escola nesse país que não dá o devido valor à educação e ainda assim tem bravos guerreiros), e depois de suas orientações de cuidado, curti a noite com os meus amigos, fechando o dia mais improvável e inesquecível do meu ano.
Bobo quem diz que não vale a pena viver as aventuras que esse Brasil nos proporciona, sem frescuras, de coração aberto. Albergue é aventura na certa e amizade garantida. Agora que descobri isso, ninguém me segura! rs
Obrigada, meninas! Obrigada, queridos amigos cariocas, mineiros, paranaenses, mato-grossenses, catarinenses!
Obrigada, Rio Rockers e sua equipe fantástica!
Obrigada, Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa!
Vocês inauguraram o ano mais importante da minha vida: ESTE!
Saudades, lembranças eternas e... até a próxima!!!
Você é louca?
Ótima primeira pergunta para ouvir num quarto de moças com sotaques diversos. Sim. Louca por chegar sozinha num albergue no Rio de Janeiro. Eu, minha mala e minhas idéias na cabeça. Esse dom maluco de fazer amigos em qualquer lugar me ajuda. Vai por mim!
Malas no lugar, ligações de cheguei bem e as escadas me separavam da sala de convivência. Num calor enlouquecedor, era o ambiente mais cobiçado do albergue, com ar condicionado e tudo à mão. Todos jogados no grande sofá, vendo novela, com o sorriso bem frouxo para quem quer que fosse. Em menos de cinco minutos já estava com um copo na mão e conversando com mineiros, catarinenses, paranaenses, suíços, gente de todos os cantos com o mesmo espírito desprendido e irreverente. Conversas descontraídas e tão diversas que passaríamos por qualquer coisa: políticos, ambientalistas ou humoristas.
O primeiro papo foi sobre origens, gostos pessoais, profissões. Só ali já tínhamos marketeiros, professores, diretores de escola, marceneiros, advogados e estudantes. Pensa que isso nos impediu de falar de tudo? Que nada! Só incentivou. Num lugar como Rio e no ambiente alberguista foi fácil chegar aos esportes radicais. Amo! Rapel, escalada, montanhismo. O catarinense já é apaixonado por mergulho submarino. Do nada uma declaração da nossa excelentíssima diretora de escola em BH: Poxa... Não faço nenhum esporte radical... Não pensei duas vezes para rebater a declaração descabida: Não? Como não? Você é diretora de escola! Quer coisa mais radical do que isso? A simpatia dos primeiros instantes foi apenas estreitada com as risadas seguintes. O primeiro contato noturno foi curto e determinante. Dormir naquele quarto com mais sete moças desconhecidas, acordando diversas vezes tentando descobrir onde estava, foi uma aventura à parte, mas sobrevivi!
Café da manhã simples, até caseiro, inaugurou o dia quando minha nova amiga instantânea, a Édila, sentou ao meu lado e logo veio o convite da praia da Barra. Precisava voltar logo, então esta me parecia a pior as opções pela distância de Copacabana, mas não resisti! Eu, Édila, Rita e Maria Luiza, andando pelas avenidas do Rio, atrás de uma condução que nos levariam ao destino tão esperado. Dois segundos depois, estávamos numa vã clandestina da melhor qualidade, que parou ali na Avenida Atlântica, numa esquina movimentada, sem nenhum pudor. Parou e nos pegou. Ar condicionado! Que alívio aquilo!
Seis reais por pessoa nos levariam até a Barra com um motorista muito simpático, que falava tão baixo que parecíamos crianças com ouvidos esticados e caras de interrogação. Confesso que eu e a Édila é que fizemos mais esse papel. Ainda penso que tenho algum problema de audição, juro! rs A Rita e a Maria Luiza pareciam ter nascido ali, entre aquelas pessoas que falam diferente e baixo! Uns quilômetros à frente, mais um grupo de três moças dão sinal e entram na vã daquele jeito, agradecendo aos céus pelo ar condicionado! Diga-se de passagem foi a primeira coisa que ouvi da boca da Edy, que entrou escorrendo de suor e bendizendo a invenção humana mais querida naquele momento: "ar condicionaaaaaaaado".
O percurso ia bem, com o motorista sussurrando os pontos turísticos no caminho para os pescoços esticados lá atrás. Ahhh! Bom ressaltar que a Rocinha é um ponto turístico! Fiquei besta de saber que existe até passeio autorizado pelos donos do morro, com direito à exposição de metralhadoras e tudo o mais. Dá pra tirar foto daquela situação irregular – "irregular", pra ser boazinha, claro. Não parece conceito de zoológico? Entre as informações do nosso motorista, quase particular, descobrimos que tem gente que constrói prédios na Rocinha, em terreno que é lógico que não os pertence, aluga, ganha grana e mora no Leblon! Tipo... Como assim??? As minhas naturais indignações político-sociais iam perambulando na cabeça quando, de repente, uma viatura manda nossa super-vã parar, no meio da avenida.
E aí, chefia, como está o movimento hoje?
Hã??? Que pergunta é essa, seu guarda??? Minha indignação começou a ferver, sair pelas orelhas e poros - menos pela boca, claro! A conversa continuou com aquele policialzinho com cara de bandido de quinta categoria.
Não... Tá fraco, só essas meninassss hoje.
Deveria ser o final da conversa, não deveria? Que nada! O guardinha meia-boca já solta um "Podemos conversar aqui atrás?"
Ah!!!! Peguei!!! Corrupção descarada!!! Ahhhhh!!! Que raiva!!! Imagina uma vã, com sete turistas nitidamente alvoroçadas - moças de biquíni, entre 25 e 35 anos -, e um carinha perdido lá no meio, de terno e gravata, que nem respirava para não atrapalhar nossa empolgação. As últimas três que estavam sentadas no fundão, já queriam saber o que estava acontecendo, porque estávamos parados no meio da rua, porque o guarda mandou nosso simpático motorista sair, será que alguém ia nos prender, nos seqüestrar, será que teria troca de tiros ou qualquer coisa desse tipo? Especulações à parte, o coitado do moço de gravata fingia dormir, mas deixava escapar um sorrisinho enviesado. As minhas amigas mineiras no primeiro banco já achavam que era alguma coisa errada no veículo que não era o mais novinho do mundo. Eu, bem no meio, só fazia sinal de G-R-A-N-A com os dedos: O filho da mãe quer o 'dele', isso sim! Parecia óbvio, apesar de inadmissível!
O motorista voltou com aquela cara de puta que pariu e foi recepcionado pela avalanche de perguntas das turistas enlouquecidas! Advinha quem estava certa? EU!!! Pelo menos ele não deu grana pro cara; o convenceu de que ainda não tinha o que dar. Grave foi a declaração que escapou mais baixinho e abandonado do que o restante: Pior que é todo dia isso...
Meuuuuuu!!! Tem um monte de bandido na rua, cara!!! E o guardinha pilantra parando vã que está trabalhando na boa, meu??? Ahhhhh!!! PQP!!!
Tudo bem... Tudo bem... O show precisa continuar...
Passamos pela conhecida Ilha dos Globais e o motorista nos deixou numa ponta da avenida, orientando os próximos passos: "vou largar vocês aqui; vocês descem, passam por baixo do viaduto, e é só andar reto que chegam na Praia do Pepê". Largar é sacanagem, não é não? Mas foi exatamente o que ele fez, nos largou lá. Os momentos seguintes foram hilários! As sete moças que se encontraram na vã, saíram juntas e assim permaneceram pelo restante do dia. Detalhe: Minhas amigas mineiras mudariam de albergue na tarde seguinte, quando eu já me prepararia para voltar pra Sampa, e iriam justamente para o albergue onde as outras três estavam hospedadas, no mesmo quarto!!! Coincidência??? Que nada... Isso não existe! Existe providência.
Pensa que só paulisssssta é acelerado? Que nada! Não foram precisos mais do que alguns segundos para que já tivéssemos uma recepção e tanto na praia da Barra. Guarda-sóis, saídas de praia, bebida e comida, além da vizinhança famosa. Sabe quando você olha pro lado e vê um rosto até conhecido, mas não tem a menor idéia de quem é? Então... Era um ator da Globo, parece que da Malhação. Pensa... Eu lá tenho tempo de ver Malhação, amigo??? Só identifiquei a "celebridade" quando as menininhas começaram a chegar pra tirar fotos com o sorrisinho escancarado do rapaz de barriga de tanquinho! Coitado, né, meu? Nem consegue tomar um sol em paz! Pior os "amigos" dele, nitidamente mais velhos e nada interessantes, dando risada do cara. Eles que eram motivo de piada. Idiotas invejosos! rs

Embaixo daqueles guarda-sóis, o papo foi caminhando para filosofias de vida, opiniões pessoais das mais malucas, histórias fantásticas de cada uma, e até descobri que uma delas, a Marcelli, namora um aikidoísta lá em Curitiba! Mundo pequeninho esse das artes marciais, viu? Sem falar da paisagem... Ah... A paisagem daquela praia... Me perdi inúmeras vezes olhando para o mar, limpando minha mente, revivendo, reciclando, recomeçando do zero. Parece que meu ano começou ali, com aquele clima delicioso de amizade recente, tranquilidade, descoberta, desafio. Tudo fora do comum como eu tanto desejei meu 2010: imprevisível e intenso. Prestava atenção em cada palavra dita, olhando bem nos olhos das novas amigas, encantada pelo momento único com que a vida me presenteou. Simpatia instantânea, sabe? Talvez por isso digam que tudo é uma questão de ação e reação, afinal, da minha parte só partia isso mesmo: simpatia, desprendimento, transparência, flexibilidade, disposição de conhecer, aprender e rir muito! Recebi o mesmo em troca e, pelo que sinto, essa não será nossa única aventura juntas.
O sol baixou e pegamos nossas coisas. Graças às meninas e à banha que a Marcelli me emprestou orientada pela Edy, ganhei uma corzinha maravilhosa para exibir na Cidade da Garoa! Depois de um tempão na avenida da praia nos perguntando se realmente existia um ônibus para Copacabana, o danado veio, L-O-T-A-D-O! Passando da catraca, vi um rapaz alto e lindo estampando um sorriso maravilhoso no rosto. O sorriso era pra mim! Com esse tamanho todo, não consegui alcançar na barra para me segurar e ele me ajudou, ainda sorrindo, e falou alguma coisa que eu nem entendi. Sorri em agradecimento e fiquei ali queitinha, apertada como sardinha na lata. Entre um balanço e outro, a conversa começou e logo estávamos todas tagarelando com o grupo dele, um grupo de italianos em férias no Rio! Engraçado o jeito que o povo se diverte por aqui! Como eles disseram, só no Brasil se pode sorrir tanto e tudo ficar bem no final. A viagem de ônibus mais alegre da minha vida! A Rita deixou o coração de um dos italianos balançado e até combinaram de se encontrar no ensaio da escola de samba à noite. Apenas elas, claro, porque eu nem curto samba e meu compromisso insubstituível era com os meus cariocas aikidoístas!
Depois do banho tomado, do perfume, do vestido branquinho mostrando as tão caras marquinhas conquistadas na Barra, recebi um abraço carinhoso da Édila (super diretora de escola nesse país que não dá o devido valor à educação e ainda assim tem bravos guerreiros), e depois de suas orientações de cuidado, curti a noite com os meus amigos, fechando o dia mais improvável e inesquecível do meu ano.
Bobo quem diz que não vale a pena viver as aventuras que esse Brasil nos proporciona, sem frescuras, de coração aberto. Albergue é aventura na certa e amizade garantida. Agora que descobri isso, ninguém me segura! rs
Obrigada, meninas! Obrigada, queridos amigos cariocas, mineiros, paranaenses, mato-grossenses, catarinenses!
Obrigada, Rio Rockers e sua equipe fantástica!
Obrigada, Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa!
Vocês inauguraram o ano mais importante da minha vida: ESTE!
Saudades, lembranças eternas e... até a próxima!!!
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